sexta-feira, 5 de março de 2010

DE ONDE VIRÁ O GRITO?

Num texto anterior introduzi o conceito de 'Ressentimentos Passivos '.

Para relembrar, lá vai um trecho: 'Você também é mais um (ou uma) dos que
preenchem seu tempo com ressentimentos passivos? Conhece gente assim?

Pois é. O Brasil tem milhões de brasileiros que gastam sua energia distribuindo
ressentimentos passivos. Olham o escândalo na televisão e exclamam 'que
horror'. Sabem do roubo do político e falam 'que vergonha'. Vêem a fila de
aposentados ao sol e comentam 'que absurdo'. Assistem a uma quase pornografia
no programa dominical de televisão e dizem 'que baixaria'. Assustam-se com os
ataques dos criminosos e choram 'que medo'. E pronto! Pois acho que precisamos
de uma transição 'neste país'. Do ressentimento passivo à participação ativa'.

Pois recentemente estive em Porto Alegre , onde pude apreciar atitudes com as
quais não estou acostumado, paulista/paulistano que sou. Um regionalismo que
simplesmente não existe na São Paulo que, sendo de todos, não é de ninguém. No
Rio Grande do Sul, palestrando num evento do Sindirádio, uma surpresa.

Abriram com o Hino Nacional. Todos em pé, cantando.

Em seguida, o apresentador anunciou o Hino do Estado do Rio Grande do Sul.
Fiquei curioso. Como seria o hino? Começa a tocar e, para minha surpresa, todo
mundo cantando a letra!

'Como a aurora precursora / do farol da divindade, / foi o vinte de setembro / o
precursor da liberdade'.

Em seguida um casal, sentado do meu lado, prepara um chimarrão. Com garrafa de
água quente e tudo. E oferece aos que estão em volta. Durante o evento, a cuia
passa de mão em mão, até para mim eles oferecem. E eu fico pasmo. Todos
colocando a boca na bomba, mesmo pessoas que não se conhecem.

Aquilo cria um espírito de comunidade ao qual eu, paulista, não estou
acostumado. Desde que saí de Bauru, nos anos setenta, não sei mais o que é
'comunidade'.

Fiquei imaginando quem é que sabe cantar o hino de São Paulo. Aliás, você sabia
que São Paulo tem hino?

Pois é... Foi então que me deu um estalo. Sabe como é que os 'ressentimentos
passivos' se transformarão em participação ativa? De onde virá o grito de
'basta' contra os escândalos, a corrupção e o deboche que tomaram conta do
Brasil? De São Paulo é que não será.

Esse grito exige consciência coletiva, algo que há muito não existe em São
Paulo. Os paulistas perderam a capacidade de mobilização. Não têm mais
interesse por sair às ruas contra a corrupção. São Paulo é um grande campo de
refugiados, sem personalidade, sem cultura própria, sem 'liga'. Cada um por si
e o todo que se dane. E isso é até compreensível numa cidade com 12 milhões de
habitantes.

Penso que o grito - se vier - só poderá partir das comunidades que ainda têm
essa 'liga'. A mesma que eu vi em Porto Alegre. Algo me diz que mais uma vez os
gaúchos é que levantarão a bandeira. Que buscarão em suas raízes a indignação
que não se encontra mais em São Paulo.


Que venham, pois. Com orgulho me juntarei a eles.


De minha parte, eu acrescentaria, ainda: '...Sirvam nossas façanhas, de modelo a
toda terra...'

Arnaldo Jabor

Enviado por Thaís Kieslarck Maciel.

O que acham do meu Naninha Cachorrinho?