quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Nosso problema sempre é o maior



Ele era jovem, bonito e herdeiro de vasta fortuna. Requisitado pelas moças, por onde quer que transitasse. Algumas, porque lhe admiravam a juventude, o cavalheirismo, a beleza.

Outras, porque nele vislumbravam a segurança econômica, que poderia ser alcançada por meio de vantajoso consórcio matrimonial.

Transcorriam felizes os dias até o momento em que um acidente lhe retirou a capacidade visual.

A revolta se instalou. Como viver sem o precioso sentido da visão?

Os médicos consultados não foram unânimes em seus prognósticos. Uns afirmaram que a questão era irreversível. Outros acenaram-lhe com a possibilidade de tornar a ver.

Como o tempo se arrastasse, sem alteração do quadro e desejando que o filho se adequasse à nova realidade, o pai contratou profissional orientadora.

A senhora, amadurecida na experiência, pacientemente foi vencendo a revolta do jovem e lhe mostrou como ele poderia se locomover pela casa, subindo e descendo as escadas, transitando de um aposento a outro.

Convidou-o a aguçar a audição e lhe demonstrou a diferença entre o ruído do café sendo despejado na xícara vazia e quando estava quase cheia.

Ensinou-o a reconhecer, pelo tato, móveis e objetos, burilando-lhe a capacidade de percepção.

Ante fracassos, pequenas quedas ou a incapacidade de realizar algo que desejava, o jovem ficava muito angustiado, em quase desespero.

Achava-se um inútil. Nessas horas, a bondosa professora lhe falava com calma, incentivando-o a tudo superar.

Irritado, ele respondia de forma grosseira e lhe dizia que para ela tudo era muito fácil, pois podia enxergar.

Sem se alterar, ela prosseguia no seu ensino.

Então, um dia, algo inusitado aconteceu. Ele percebeu um raio de sol lhe ferindo os olhos.

Infinitamente alegre, deu-se conta que voltara a enxergar. Entre gritos de alegrias, chamou o pai, o irmão, comemorando com efusivos abraços a ventura.

Por fim, lembrou-se da orientadora e correu a dar-lhe a notícia.

Então, e somente então, descobriu: aquela a quem tantas vezes ele ofendera, com palavras ásperas, dizendo que para ela tudo era fácil por poder enxergar, era uma senhora totalmente cega.

Arrependido, abraçou-a e lhe rogou perdão...

O que acham do meu Naninha Cachorrinho?